domingo, 19 de abril de 2009

Valle Camonica



A Valle Camonica, ou Valcamonica como é conhecida, é um dos maiores vales alpinos da Lombardia, com uma superfície de 1335 km² e 118.323 habitantes. A quase totalidade do seu território está sob a administração da província de Brescia, com exceção de três municípios pertencentes à província de Bergamo.


Seu nome deriva do latino Vallis Camunnorum, ou seja "Vale dos Camunos," antigos habitantes que ocuparam a região há mais ou menos 15.000 anos, depois da Era Glacial. Por causa dos camunos, o território da Valcamonica é conhecido pelas incisões rupestres cuidadas pelos parques arqueológicos, entre eles os dos municípios de Capo di Ponte e Darfo Boario Terme, patrimônios da humanidade tutelados pela Unesco.



Está dividida em três partes:


1. Bassa Valcamonica, a parte baixa do vale, caracterizado pelas planícies e que tem início nas margens do Lago de Iseo em Pisogne e Lovere;


2. Media Valcamonica, mais montuosa, começa em Breno;


3. Alta Valcamonica, de Edolo a Ponte di Legno, quase na fronteira com o Trentino Alto Adige.

Pisogne, província de Brescia, e o Lago de Iseo. Aqui começa a Valcamonica
Lovere, província de Bergamo. O município também é banhado pelo Lago de Iseo e  seu centro histórico tem o reconhecimento do club Os mais Belos Burgos da Itália

Parte do municípios de Darfo Boario Terme e Artogne, ambos da Bassa Valcamonica. No alto, um dos pontos turísticos invernais da região,  Montecampione

Entre as atividades turísticas da Valcamonica estão as estações termais, um tempo mais prosperosas. Uma dessas termas é a do município de Angolo Terme.






De Angolo Terme, descendo, encontramos o distrito de Gorzone, pertencente ao município de Darfo Boario Terme, também da província de Brescia.



Em Gorzone encontra-se um dos castelos da Valcamonica, antiga residência da família Federici nos séculos XIV ao XIX (os Federici eram uma importante família gibelina da região que teve seu auge no século XV). O Castelo de Gorzone, como é chamado, não se parece com aqueles típicos castelos. É mais parecido com uma grande casa feudal, mas é considerado castelo devido a função que exercia, isto é, um lugar fortificado.



Saindo do castelo e descendo em direção ao centro de Gorzone, encontraremos a paróquia de Santo Ambrogio, datada do século XVIII. Do lado de fora está o sarcófago, de época medieval, dedicado a Isonno Federici, o membro mais importante da família.



Ao longo da estrada que atravessa o distrito de Gorzone, encontramos diversos estabelecimentos comerciais das famílias locais. Hoje, muitos estão fechados devido a concorrência com as filiais de grandes supermercados. Achei interessante porque retrata bem a Itália "pré capitalista", muito parecida com algumas cidadezinhas do interior do Brasil.


Outro local turístico da Valcamonica é o Lago Moro, um dos mais procurados pelos turistas na região. É o clássico lugar para quem estiver afim de um piquenique ou uma voltinha de pedalinho.


Tenho medo de lagos e rios, mas este em particular é o que mais me amedronta. Isto porque sempre dizem que é perigoso nadar lá por uma série de motivos: água muito fria que acaba causando congestão e cãibras, margens abruptas, cor escura da água, ausência de serviço de socorro organizado e, para completar, uma capelinha às suas margens dedicada a um jovem que morreu afogado em 1922. O lago também tem algumas lendas: a mais famosa conta a história de uma casa que havia em uma clareira, no atual lugar do lago. Nessa casa morava uma moça com seu bebê recém nascido e num certo dia, um misterioso transeunte bate à porta pedindo comida. A mulher o expulsa com grosseria e ele, indo embora, maldiz a casa. À noite um dilúvio alaga a clareira, cobrindo a casa com a mãe e a criança e formando o lago. A partir de então, toda noite de lua cheia aparece nas águas do lago um bercinho iluminado com o bebê dentro. Pode parecer sinistro, mas é um local muito bonito e frequentado (de dia). A vista que se tem de lá à noite é linda e se o céu, quando límpido, é bem estrelado. 



Ao redor do lago há um povoado com aproximadamente 20 habitantes, Capo di Lago, distrito do município de Darfo Boario Terme. É composto de algumas casas e de uma igrejinha dedicada a Santa Apolônia, construída no século XVIII sobre uma capela já existente.



Descendo, encontramos Darfo Boario Terme, o município mais populoso da Valle Camonica e o segundo da província de Brescia. É formado pelos municípios (comuni) di Darfo e Boario Terme, cada um constituído, por sua vez, de diversos distritos (frazioni). Eu sei que parece meio complicado entender a formação do sistema urbano da Itália, pois nós brasileiros estamos habituados a uma outra forma de organização. Fui entender realmente depois que vim para cá e funciona assim: Darfo, Boario, Corna, Capo di Lago, Montecchio, por exemplo, são distritos que se uniram para formar o município de Darfo Boario Terme (e Darfo é a capital do município). 

Igreja paroquial dedicada aos SS Giuseppe e Gregorio Magno, em Darfo Boario Terme
Sede do município de Darfo Boario Terme
Fiume Oglio, um dos maiores rios italianos, e a igreja paroquial de Santa Maria Assunta em Montecchio, distrito de Darfo Boario Terme
Ponte de Montecchio (século XVII). Havia aí um castelo do século X que foi destruído em 1455 por ordens da República de Veneza (durante sua dominação lombarda)

Além das termas de Angolo, a Valcamonica conta também com as de Boario Terme, o maior e mais importante centro termal do vale. Começa a ser explorado em meados do século XIX e até os anos 80 vive uma prosperidade turística. Nos últimos anos vemos muitas propagandas e atividades turísticas para valorizar as famosas termas de Boario, um pouco "abandonadas".


Já bebi aí até água quente, vinda diretamente da fonte

Vale a pena também visitar o distrito de Erbanno, também do município de Darfo Boario Terme. Situa-se no alto de um morro e é também um burgo medieval. Na entrada de Erbanno podemos ver a antiga torre de sino, em estilo românico, da já extinta igreja de San Martino. Além do campanário, o que restou da igreja foi uma capela construída no século XV. O local da igreja abriga hoje um pequeno cemitério. Em Erbanno também encontram-se algumas "heranças" da família Federici, entre elas o palacete da família e a igreja de Santa Maria in Restello, construída em 1525.


O último distrito do município de Darfo Boario Terme em direção à Alta Valcamonica é Angone. O centro histórico é todo em estilo burgo medieval, com casinhas de pedra e vielas.



Depois do município de Darfo Boario Terme segue o de Piancogno, o município mais jovem da Valle Camonica. Foi formado pelas comunidades de Piano di Borno (Piamborno, ou ainda Pian di Borno e Pianborno), ex distrito do município de Borno, e Cogno, de Ossimo. Atualmente, além de Piamborno e Cogno, pertence também a Piancogno o distrito de Annunciata.


Na placa de entrada de Piamborno está escrito o nome do local em italiano e, abaixo, seu apelido: Màia pumì, ou seja, "comedores de maçãs", pois seus habitantes roubavam maçãs na cidade vizinha, em Angone. Outro nome che vemos escrito, em italiano, é "cidade das flores". Isto porque anualmente, em maio, acontece a Feira das Flores. Em Piamborno tem uma capela dedicada à imagem de uma santa conhecida por Madonnina Nera, por causa de sua cor escura.


É interessante a origem do nome Cogno, que deriva de cuneus, triângulo de terra, exatamente a forma que tem o distrito.


Annunciata é o distrito menos povoado de Piancogno e a população é praticamente a do convento que originou seu nome. Há uma igreja no local e nos seus subterrâneos podemos visitar um pequeno ossário e um presépio animado, disponível o ano todo. Como Annunciata está situada no alto de uma montanha, é possível admirar grande parte da Baixa Valle Camonica lá de cima.



Ao fundo, a igreja paroquial Sacra Famiglia e San Vittore

De Piancogno passamos agora para Bienno, outro município pertencente ao club de Os Mais Belos Burgos da Itália. Passeando pelo centro histórico temos a impressão de estarmos no set de algum filme sobre a Idade Média. E durante as manifestações turísticas, como a Mostra Mercato que acontece todo ano em agosto, esse ar medieval "contagia" a cidade e os habitantes: além das apresentações com "ritmos" medievais, vemos também os encarregados da iluminação acender as luzes da cidade com tochas.


Bienno é também conhecido pelo malho e, por tal razão, abriga o Museu Etnográfico do Ferro, das Artes e das Tradições Populares. Há também um grande malho na rua, ainda ativo, movido por um moinho, onde alguns ferreiros demonstram a arte de trabalhar o ferro. Para mover o malho é necessário o moinho e em Bienno há uma quantidade notável deles, acionados pela água. É um dos símbolos da cidade, tanto que gerou o seu nome (do latim biennius, ou seja, canais do moinho).



Bienno é também conhecido pelo seu "Cristo Redentor", mas este é de bronze e bem menor que o nosso Cristo. Situa-se no complexo santuário de Santa Maria Maddalena, conhecido como Colle del Cristo Re. A estátua de Cristo está apoiada sobre o Sacrario dei Caduti, monumento dedicato aos mortos da Segunda Guerra Mundial.






Além do Cristo Rei, há ainda o Santuario della Maddalena, a Cappella del Sepolcro, a Sala di Santa Marta e o Romitorio (casa dos eremitas), datados entre os séculos XV e XVI.

Santuário dedicado a Santa Madalena


Continuando com o percurso, nos deparamos no caminho com Breno, centro administrativo da Valcamonica e início da Media Valcamonica. É famoso o Castello di Breno, situado no alto de uma colina, no centro da cidade.


Pesquisas arqueológicas permitiram encontrar na área do castelo e nos seus arredores alguns resquícios da Pré História, pretencentes aos camunos, entre eles uma habitação neolítica, alguns utensílios, vasos e dois túmulos. Não foram encontrados, porém, restos da Antiguidade Romana, já que provavelmente os habitantes se transferiram para a vizinha Civitas Camunorum (hoje, Cividate Camuno, um município que abriga alguns restos da civilização romana).


Antes do castelo, foi construída uma capela dedicata a São Miguel Arcanjo, o protetor dos longobardos (população da Alemanha oriental que que viveu na atual região italiana da Lombardia - daí o nome). No século XII a capela foi ampliada para dar forma a uma igreja românica, que depois é demolida e hoje vemos somente seu basamento.

No século XII também surgem construções civis das famílias guelfas, como grandes palácios de dois andares, torres com parapeitos guelfos e casatorre (um forte que exerce funções tanto civis como militares e era habitado por nobres). Com a chegada dos senhores feudais milaneses, as construções civis se transformaram em fortalezas militares e foram substitídos os parapeitos guelfos em gibelinos. Tudo isso para a combater a invasão da Sereníssima República de Veneza nas terras pertencentes ao Ducado de Milão, que no final das contas ficaram com os venetos.


Foi um dos poucos castelos, junto com os de Cimbergo e Lozio (outros dois municípios da Valcamonica), que resistiu depois que a República de Veneza mandou destruir todas as fortificações existentes para evitar novos ataques por parte dos milaneses. 




Além do castelo, Breno também abriga outro monumento histórico importante, o Santuário de Minerva, dedicado a deusa romana da guerra e protetora dos artesãos. Remonta à Dinastia Flaviana (69 a 96 a.C.), costruído em um local de culto já frequentado na Idade do Ferro.

Com o fim do Império Romano, no século V da era cristã, o santuário é incendiado e parcialmente destruído, como quase todos os demais monumentos romanos (que eram ou incendiados, demolidos ou usados como escavações para aproveitar mármores e outros materiais, pois a Igreja Católica não aceitava o paganismo). Por sorte, houve uma enchente do rio Oglio no século XIII que o cobriu com detritos e o "protegeu" até os anos 80 da era contemporânea. Hoje, o Santuário de Minerva é aberto ao público e espero em breve aparecer por lá para uma visitinha.


De Breno passamos por Capo di Ponte, local onde se encontram três parques arqueológicos de incisões rupestres, tutelados pela Unesco. No dia que fomos a Capo di Ponte ver as incisões, os parques já estavam fechados e para não sair sem nenhuma foto, tirei esta aqui da Pieve di San Siro di Pavia. Pieve era uma circunscrição civil e religiosa composta de uma igreja matriz e um batistério (pieve está relacionado a pia batismal), substituída pela paróquia. A Pieve di San Siro localiza-se em Cemo, distrito do município de Capo di Ponte, um dos primeiros centros habitados da Valle Camonica. Situa-se em um lugar panorâmico, há algumas centenas de metros do centro habitado.



Com Edolo chegamos à Alta Valcamonica, reta final do nosso percurso. Faz fronteira com os municípios da província de Sondrio, extremo norte da Lombardia, entre a Itália e a Suíça. Em Edolo encontra-se a Facoltà di Agraria da Università degli Studi di Milano e foi instituído recentemente um curso de graduação em Valorização e Tutela do Ambiente e Território Montano.

Centro de Edolo. Ao fundo, vê-se o campanário da Pieve de Edolo


O último município da Valcamonica é Ponte di Legno, na fronteira entre as regiões da Lombardia e o Trentino Alto Adige. É aqui que nasce o rio Oglio. Ponte di Legno tem este nome por causa das pontes de madeira (legno, em italiano) presentes na cidade. A cidade é famosa por suas estações de esqui, graças ao distrito de Tonale, na divisa com o Trentino. De Ponte di Legno, através de teleféricos que atravessam a cidade, podemos chegar ao Passo del Tonale, onde encontra-se uma das importantes estações de esqui, o Adamello Ski

Residência ou parque privado em Ponte di Legno a imitação de um castelo

Achei interessante esta casinha com um jardim no teto. É a sede de uma agência imobiliária em Ponte di Legno

Símbolo do brasão da Valcamonica na praça central de Edolo

Para concluir, cito superficialmente algumas das especialidades culinárias da região. O prato mais famoso é os Casoncelli, uma espécie de Ravioli feitos com uma massa mais fina, recheado com carne bem temperada e acompanhado de manteiga, sálvia e queijo ralado. Irresistível ao nosso paladar! Outra especialidade é o strinù, uma linguiça grossa feita com carnes suínas e bovinas, muito apreciada. É cozida na chapa ou na brasa e acompanhada de pão (pa' e strinù).


5 comentários:

  1. Marco Federici Guimaraes7 de fevereiro de 2010 14:30

    Ola Juliano,

    Muito interesssante seus textos. estava fazendo uma busca no google e encontrei seu blog. Sou um Federici e estou buscando informacoes sobre meus antepassados. Estou morando em Londres no momento e vou tentar o reconhecimento da minha cidadania Italiana.
    Qq informacao e muito bem vinda.
    meu e-mail para contato eh: fotografiamarco@gmail.com

    ciao

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  2. Gostei do texto, é muito informativo.
    Espero poder visitar Valcamonica, principalmente Breno, cidade com o mesmo nome que tenho (fico imaginando na hora de me hospedar, deve ser engraçado).

    Abs

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  3. Muito bom o texto...
    gostei muito, bem informativo.
    Escrevo um livro que se passa emcertas regiões ai da Itália e gostaria de fazer um certo intercambio de informações.
    Deixo meu msn. jrs.autor@hosmail.com.
    Aguardo respostas.
    At.
    J.R.S.

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  4. Gostei muito do seu blog, espero um dia conseguir visitar esta lindas cidades. Sou de São Paulo meu sobrenome é VALCAMONICA
    JOSÉ CARLOS VALCAMONICO
    email: vallemon.abyara@hotmail.com

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